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O Risco com o Recuo da USAID nos Países Lusófonos
Quando o apoio se retira, o impacto não é apenas administrativo. É humano. É profundo. É real.
Por António Cunha
Publicado em 23/03/2025 07:00
Opinião

 

Nos últimos anos, diversos países de língua oficial portuguesa – com especial incidência nos de menor rendimento – beneficiaram-se diretamente do apoio da USAID, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. Esta colaboração não apenas transferiu recursos, mas também conhecimentos técnicos, programas de formação e instrumentos de transformação social em países como Moçambique, Guiné-Bissau, Angola, Brasil, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

 

Contudo, com a crescente instabilidade política e mudanças de prioridades nos EUA, a continuidade deste apoio está ameaçada. E essa possível retirada não deixará apenas lacunas orçamentais – deixará um rasto de fragilidade onde antes havia esperança.

 

 

 

Quando a saúde depende de um fio

 

Em Moçambique, onde mais de 2 milhões de pessoas vivem com HIV, a USAID tem sido crucial no financiamento de programas de combate ao HIV/SIDA, malária e tuberculose. O acesso ao tratamento antirretroviral, à prevenção da malária e ao diagnóstico da tuberculose tem avançado, mas ainda é frágil, especialmente em zonas rurais.

 

O fim desse apoio poderá significar o aumento da mortalidade infantil, a interrupção de tratamentos e a vulnerabilidade total de comunidades inteiras que dependem dessa assistência para viver. A malária continua a ser a principal causa de morte hospitalar, e a tuberculose segue a matar silenciosamente, especialmente entre os mais pobres.

 

 

 

Educação em pausa: gerações em risco

 

Na Guiné-Bissau e em São Tomé e Príncipe, o apoio da USAID tem permitido formar professores, melhorar escolas e distribuir materiais escolares. Em contextos onde muitos docentes não têm formação adequada e as escolas carecem de infraestrutura básica, o fim dessa ajuda pode levar ao aumento do abandono escolar, à queda na qualidade do ensino e à perpetuação da pobreza intergeracional.

 

Sem educação, não há futuro – apenas repetição de desigualdades e aumento dos ciclos de violência

 

 

 

A agricultura que alimenta

 

Em Angola e Timor-Leste, comunidades agrícolas inteiras dependem de projetos como o Feed the Future, que ensina práticas sustentáveis, melhora o acesso ao mercado e combate a insegurança alimentar.
A retirada desses programas comprometerá a subsistência de milhares de famílias, que voltariam a depender de métodos ultrapassados, agravando a fome, a desnutrição e a vulnerabilidade económica.

 

 

 

O Brasil e o meio ambiente: um alerta que é de todos

 

Mesmo o Brasil, que ocupa a 13ª posição entre os países que mais receberam apoio da USAID em 2024, pode sentir o impacto.
Projetos como “Tapajós para a Vida”, voltado para a conservação da Amazônia, e o Programa de Manejo do Fogo, que capacitou mais de 3 mil brigadistas indígenas, podem sofrer cortes.
Embora o Ibama afirme que o combate direto aos incêndios é financiado pela União, a perda de cooperação internacional fragiliza os esforços de prevenção e conhecimento técnico num momento em que as alterações climáticas exigem ação global coordenada.

 

 

 

Direitos humanos e igualdade em risco

 

A USAID também financia programas de empoderamento de mulheres e meninas, combate à violência de género e defesa dos direitos humanos.
Nas regiões mais pobres, onde imperam estruturas patriarcais toxicas, ausência de proteção legal e acesso desigual à educação e saúde, esses programas são literalmente uma tábua de salvação.

 

A sua retirada deixará milhares de mulheres e meninas ainda mais invisíveis, desamparadas e vulneráveis a ciclos de violência, exploração e exclusão.

 

 

 

O impacto vai além das fronteiras

 

A ausência de ajuda da USAID não será sentida apenas localmente. O colapso de serviços básicos pode gerar instabilidade política, crises humanitárias, aumento da migração irregular, crescimento do tráfico de pessoas e fragilização da segurança internacional.

 

Além disso, o vácuo deixado poderá ser ocupado por atores com menos compromisso com a democracia e os direitos humanos, alterando o equilíbrio geopolítico e enfraquecendo os valores universais que a própria USAID defende.

 

 

 

Não é caridade. É responsabilidade global.

 

Este momento não pede caridade, mas responsabilidade partilhada e visão estratégica.
A cooperação internacional, quando feita com respeito e compromisso mútuo, não cria dependência — constrói pontes, fortalece instituições e protege futuros.

 

 

O que os EUA também ganham com isso

 

A ajuda prestada através da USAID não é unilateral. Ao contribuir para o desenvolvimento, estabilidade e justiça social em países em desenvolvimento, os Estados Unidos reduzem o risco de crises globais, extremismo, fluxos migratórios descontrolados e instabilidade geopolítica.

 

Além disso, fortalecem a sua imagem internacional, ampliam laços diplomáticos e comerciais, e reafirmam o seu papel como líder solidário, promotor da democracia e do desenvolvimento sustentável.

 

 

 

Quando a ajuda cessa, não são só verbas que se perdem – são vidas que se apagam

 

Quando o mundo desviar o olhar, o preço será pago por quem menos pode pagar.

 

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