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FÁTIMA 1917: O ANÚNCIO QUE SABIA O FUTURO
Uma pesquisa da RNLP – Rádio Nova da Língua Portuguesa
Por António Cunha
Publicado em 13/05/2026 08:07
Biblioteca do Conhecimento
Esta fotografia histórica retrata a multidão reunida na Cova da Iria, em Fátima, Portugal, no dia 13 de outubro de 1917. Fonte: Wikipédia

Se está a ler este texto no seu computador, telemóvel/celular ou tablet, pare um instante.

Tente imaginar que nunca ouviu falar de: internet, telemóveis / celulares, computadores, homem na lua, era atómica, voos comerciais, teoria da relatividade, Hitler, e tantas, tantas outras coisas.

É quase impossível, não é? Mas faça esse esforço. É necessário para perceber o que se segue.

Agora, situe-se a 10 de março de 1917. O planeta Terra sangra no seu primeiro conflito bélico à escala planetária: a Primeira Guerra Mundial. A Europa é um campo de trincheiras, gás mostarda e morte em massa. Mais de 9 milhões de soldados vão morrer antes do fim.

Imagine-se sentado no café "A Brasileira" do Chiado, em Lisboa. Tem nas mãos a edição desse mesmo dia do Diário de Notícias. Vira as páginas. Na página 4, na 9.ª coluna, encontra um anúncio pago com um número em destaque:

135917

O conteúdo desse pequeno texto parece dirigir-se aos milhares de famílias portuguesas que têm os seus filhos no campo de batalha da Flandres (norte da Bélgica), onde integram os exércitos em luta nessa terrível guerra – e onde muitos morrerão vítimas de gaseamento. No texto, lê-se:

"Não esqueças o dia feliz em que findará o nosso martírio. A guerra que nos fazem terminará."

Para esse dia, 10 de março de 1917, esse anúncio parece completamente sonhador – no máximo, uma boa intenção igual a tantas outras, próprias de um período onde o assunto "guerra" se sobrepõe a tudo o resto.

Certo?

Errado!

 

A REVELAÇÃO

A 11 de maio de 1917, é enviado um postal à Redação do Jornal de Notícias, no Porto, onde se reforça a mensagem que antes saíra no Diário de Notícias. O conteúdo do texto deixa os redatores tão estupefactos que colocam como título "Revelação sensacional" e reproduzem o aviso:

"No dia treze do corrente, há-de dar-se um facto, a respeito da guerra, que impressionará fortemente toda a gente."

Também se observam nos jornais O Primeiro de Janeiro e Liberdade dois anúncios com as mesmas previsões. Algo estava a ser preparado. Algo que ninguém compreendia.

Nos cinco meses seguintes, milhares de pessoas começaram a deslocar-se a Fátima nos dias 13. Lúcia, a mais velha dos três pastorinhos, disse que a "Senhora" deixara claro que regressaria consecutivamente até 13 de outubro.


QUEM ESTAVA POR TRÁS DOS ANÚNCIOS?

Revelação documental (fonte fidedigna: Atas do Centro Espírita de Lisboa): Os responsáveis pela colocação destes anúncios foram os centros de espiritismo de Lisboa e do Porto – uma atividade muito em voga na época, influenciada pelo espiritualismo francês de Allan Kardec.

Na "Ata" do Centro Espírita de Lisboa, de 7 de fevereiro de 1917, lê-se:

"Estando nós reunidos para trabalhos psíquicos e estudos ocultos, a determinada altura dos trabalhos, um dos assistentes pediu papel e lápis e automaticamente escreveu da direita para a esquerda uma comunicação (...). Nessa comunicação afirma-se que a data do 13 de maio será de grande alegria para os bons espíritas de todo o mundo."

A decisão que levou à publicação do anúncio deve-se, segundo a mesma Ata, ao seguinte:

"Discutiu-se a comunicação recebida e resolveu-se: - Que a data de 13 de Maio ficasse exarada num jornal, para que no futuro não pudessem haver dúvidas sobre a veracidade do facto sucedido."

Ou seja: os espíritas quiseram deixar prova documental do que lhes tinha sido «comunicado» antes de acontecer. Um gesto de transparência invulgar para a época – ou de enorme audácia.

 

O DIA 13 DE MAIO DE 1917 – A PRIMEIRA APARIÇÃO

Por volta do meio-dia de 13 de maio de 1917, na Cova da Iria, três pastorinhos – Lúcia de Jesus dos Santos, de 10 anos, Francisco Marto, de 9 anos, e Jacinta Marto, de 7 anos – viram uma luz brilhante, parecida com um relâmpago. Talvez em pânico, decidiram ir-se embora. Mas logo depois, outro clarão iluminou todo o espaço.

Em cima de uma pequena azinheira (árvore típica mediterrânica, parente do carvalho, de folha persistente e espinhosa) – onde hoje se encontra a Capelinha das Aparições – surgiu uma "Senhora mais brilhante que o sol" .

Dado da tradição oral (transcrito nos inquéritos canónicos): Segundo os testemunhos recolhidos na época pela Igreja, a senhora disse às três crianças que era necessário rezar muito e que aprendessem a ler. Convidou-as a voltar ao mesmo local a cada dia 13 dos próximos cinco meses.

Assim, naquele ano de 1917, as três crianças assistiram a outras aparições no mesmo local em 13 de junho, 13 de julho e 13 de setembro. Em agosto, a aparição ocorreu no dia 19, no lugar dos Valinhos (a cerca de 500 metros de Aljustrel), porque a 13 de agosto as crianças tinham sido presas e levadas para Vila Nova de Ourém pela polícia, a mando do administrador do concelho (função semelhante a um atual Presidente de Câmara Municipal / Perfeito da Cidade).

 

 

O "MILAGRE DO SOL" – 13 DE OUTUBRO DE 1917

A 13 de outubro, estavam presentes na Cova da Iria cerca de 50 a 70 mil pessoas (consoante as versões; o professor José de Almeida Garrett, docente de ciências naturais na Universidade de Coimbra e ali presente, falou em 100 mil). Nossa Senhora teria dito às crianças: "Eu sou a Senhora do Rosário" , pedindo que fizessem ali uma capela em sua honra – o local onde hoje está a famosa Capelinha das Aparições, parte central do Santuário de Fátima.

Muitos dos presentes afirmaram ter observado o chamado "Milagre do Sol" , prometido às três crianças em julho e setembro.

Descrição fenomenológica (testemunhos múltiplos): Segundo os relatos da época, o sol, assemelhando-se a um disco de prata fosca, podia fitar-se sem dificuldade – o que normalmente é impossível, pois olhar diretamente para o sol danifica a retina. Girava sobre si mesmo como uma roda de fogo, parecendo precipitar-se na terra. Após uma chuva torrencial, as nuvens desmancharam-se no firmamento e o Sol apareceu como um disco opaco, girando no céu. Algumas testemunhas afirmaram que não se tratava do Sol, mas de um disco em proporções solares, semelhante à lua – significativamente menos brilhante do que o normal, acompanhado de luzes multicoloridas que se refletiram na paisagem, nas pessoas e nas nuvens circunvizinhas.

Muitas testemunhas relataram que a terra e as roupas previamente molhadas ficaram completamente secas num curto intervalo de tempo – algo fisicamente inexplicável pelos processos naturais comuns (evaporação rápida exigiria calor intenso, mas não houve queimaduras).

De acordo com os relatórios, o fenómeno durou aproximadamente dez minutos. Os três pastorinhos relataram que viram Jesus, a Virgem Maria e São José abençoando as pessoas dentro ou junto do Sol. Outras testemunhas afirmaram ter visto vultos de configuração humana dentro do Sol quando este desceu.

 

 

O QUE A CIÊNCIA DIZ (E O QUE NÃO DIZ)

Dado científico crucial (ausência de registo astronómico): Durante o dia do fenómeno, não foi reportada nenhuma observação científica extraordinária do Sol em observatórios astronómicos – nem em Coimbra, nem em Madrid, nem em Paris, nem em Greenwich. O Sol, do ponto de vista da astrofísica, comportou-se normalmente naquele dia. Ninguém registou perturbações magnéticas ou movimentos anómalos do astro.

Então o que viram as 50 a 100 mil pessoas? Os céticos levantam várias hipóteses:

  1. Ilusão de ótica coletiva (como a "fadiga retinal" após olhar fixamente para uma fonte de luz).
  2. Fenómeno atmosférico raro (como um arco-íris circular ou parélio – "sol falso" provocado por cristais de gelo em suspensão).
  3. Histeria de massa induzida pela expectativa criada pelos anúncios.

No entanto, os investigadores sérios colocam objeções poderosas a estas hipóteses:

  • O facto de o evento ter sido anunciado antecipadamente (nos jornais, meses antes) afasta a possibilidade de alucinação espontânea.
  • abrupto início e final do fenómeno sobre o Sol não é típico de ilusões óticas, que geralmente têm evolução gradual.
  • natureza diversa dos observadores – crentes, céticos, jornalistas, professores, padres, soldados – torna improvável uma alucinação coletiva uniforme.
  • grande número de pessoas (dezenas de milhares) e a distância (fenómeno reportado também por pessoas a 18 km do local) deitam por terra a hipótese de histeria em massa confinada a um espaço pequeno.

O testemunho pessoal do autor deste texto: a avó do autor deste artigo também esteve presente na Cova da Iria no dia 13 de outubro de 1917. Relatou em família, que viu o sol "dançar" e que as suas roupas, encharcadas pela chuva, ficaram secas "num instante, sem sentir calor". Relato tradicional oral, sem valor probatório científico.

 

 

O SOFRIMENTO DAS POPULAÇÕES E O CONTEXTO DA GUERRA

Evidência de sofrimento (dado histórico): Em 1917, Portugal vivia um dos períodos mais negros da sua história. O país tinha entrado na guerra em 1916 ao lado dos Aliados. As trincheiras da Flandres engoliam jovens soldados portugueses do Corpo Expedicionário Português (CEP) . As condições eram desumanas: lama, ratos, frio, e o terror do gás mostarda – um agente químico que queimava a pele, cegava e asfixiava lentamente.

Comparação IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) – Portugal 1917 vs Europa: No início do século XX, o IDH estimado de Portugal era de cerca de 0,35 – um dos mais baixos da Europa Ocidental. A esperança de vida rondava os 38 anos (contra 45 em França e 53 no Reino Unido). O analfabetismo atingia 70% da população (contra 20% na Inglaterra). A mortalidade infantil ultrapassava os 30% no primeiro ano de vida.

Neste contexto de pobreza extrema, analfabetismo generalizado e guerra sangrenta, três crianças pastoras – que quase não sabiam ler nem escrever – tornaram-se o centro de um dos maiores fenómenos religiosos do século XX. A ironia histórica é cruel: a "Senhora" pediu-lhes que aprendessem a ler. Elas aprenderam. Lúcia tornou-se freira e escreveu memórias. Francisco e Jacinta morreram jovens, vítimas de doença.

 

 

A GUERRA É A ESSÊNCIA DA MENSAGEM

Revelação historiográfica (fonte: especialistas e investigadores académicos): Segundo os historiadores contemporâneos que estudaram os documentos originais, "a Guerra é a essência da Mensagem de Fátima; tudo o resto é uma construção posterior, como é o caso da mensagem anticomunista, que só se sabe nos anos 30" .

Ou seja: o que Lúcia, Francisco e Jacinta ouviram em 1917 estava profundamente ligado ao sofrimento da Primeira Guerra Mundial. O pedido de oração pela paz, o terror de um conflito que parecia não ter fim. A mensagem anticomunista – que tornou Fátima famosa durante a Guerra Fria – foi adicionada décadas depois, quando a Igreja Católica confrontava a União Soviética.

Dado factual: a Primeira Guerra Mundial terminou oficialmente a 11 de novembro de 1918 – pouco mais de um ano após a última aparição. Fátima não previu o fim da guerra? Não diretamente. Mas os anúncios de jornal falavam de um "facto que impressionará fortemente toda a gente" – e o Milagre do Sol impressionou, de facto, toda a gente.

 

 

A REAÇÃO DA IGREJA: DO SILÊNCIO AO ACOLHIMENTO

Qual era o principal interesse da Igreja Católica em esconder o evento? Em 1917, Portugal era uma república anticlerical desde a implantação da República em 1910. A Igreja tinha sido expropriada de bens, os jesuítas expulsos, e o ensino religioso proibido nas escolas. O governo republicano via as aparições de Fátima como uma manobra política da Igreja para recuperar influência sobre um povo analfabeto e sofredor.

Por isso, nos primeiros anos, a Igreja oficial manteve silêncio e ceticismo. As autoridades eclesiásticas locais abriram inquéritos canónicos (investigações formais da Igreja) – mas não se pronunciaram publicamente. Havia receio de que o governo republicano usasse o caso para perseguir ainda mais os católicos.

Investimentos da Igreja depois do acolhimento oficial (13 de outubro de 1930): A partir de 1930, quando o Vaticano declarou as aparições "dignas de fé", a Igreja começou um investimento maciço no local.

Investimentos da Igreja (dados estimados):

  • 1930-1950: construção da Capelinha das Aparições e da Basílica de Nossa Senhora do Rosário (estilo neobarroco). Custo estimado: 500.000 contos (moeda da época) – equivalente a cerca de 10 milhões de euros atuais.
  • 1950-2000: construção do recinto de oração, alargamento da basílica, hotéis para peregrinos, hospitais, centros de acolhimento. Investimento acumulado superior a 100 milhões de euros.
  • 2000-2024: construção da Basílica da Santíssima Trindade (maior igreja moderna do mundo, com capacidade para 9.000 fiéis). Custo: 80 milhões de euros, financiado inteiramente por donativos de peregrinos.

Investimentos do Estado Português (especialmente durante o Estado Novo, 1933-1974): O regime de António de Oliveira Salazar viu em Fátima um instrumento de legitimação política. O Estado investiu em:

  • Infraestruturas: estradas, eletrificação, água canalizada para a região.
  • Transportes: comboio direto Lisboa-Fátima (1950).
  • Subsídios anuais para obras de conservação (estimados em 500 mil euros por ano, a preços atuais).

Comparação com investimentos europeus: Fátima recebeu, entre 1930 e 2020, um investimento conjunto (Igreja + Estado) estimado em mais de 200 milhões de euros. Em comparação, o Santuário de Lourdes (França) recebeu cerca de 150 milhões no mesmo período. Fátima tornou-se o segundo maior santuário mariano da Europa, a seguir a Lourdes.

 

 

O QUE OS HISTORIADORES CONCLUEM

Dado científico (historiografia atual): Os historiadores não encontram uma explicação científica para o anúncio antecipado. Não há registo de que os espíritas de Lisboa e do Porto tivessem qualquer informação privilegiada sobre o que aconteceria em Fátima. As Atas do Centro Espírita são claras: a comunicação foi recebida "automaticamente" – ou seja, por escrita mediúnica.

Três hipóteses concorrentes:

  1. Hipótese religiosa: ocorreu uma intervenção divina, anunciada por meios sobrenaturais a espíritas (que não eram católicos praticantes) e a crianças pastoras.
  2. Hipótese cética (fraude consciente): os espíritas inventaram a história e publicaram os anúncios para criar um fenómeno mediático. As crianças teriam sido manipuladas por adultos (talvez o padre local). Problema: não há provas documentais de manipulação; as crianças mantiveram a mesma versão sob interrogatório repetido.
  3. Hipótese cética (fenómeno natural mal interpretado): o "Milagre do Sol" foi uma ilusão de ótica coletiva (como um parélio) amplificada pela histeria e pela expectativa. As crianças, sujeitas a um ambiente religioso intenso, teriam tido alucinações que interpretaram como aparições. Problema: o anúncio antecipado permanece inexplicado.

O mistério que persiste: nenhuma das hipóteses explica satisfatoriamente todos os factos – especialmente o anúncio prévio publicado em jornais nacionais, meses antes dos acontecimentos, por um grupo espírita que não tinha ligação conhecida às crianças pastoras.

 

 

CONCLUSÃO – POR QUE ISTO IMPORTA HOJE

Fátima não é apenas um fenómeno religioso. É um documento histórico. É um caso único na história moderna: um evento anunciado antecipadamente em jornais, testemunhado por dezenas de milhares de pessoas, investigado pela Igreja (que demorou 13 anos a pronunciar-se), e que resiste a explicações científicas simples.

Em 1917, Portugal era um país pobre, analfabeto, dilacerado pela guerra. Três crianças que mal sabiam ler tornaram-se o centro de um fenómeno que atravessou o século. A avó do autor deste texto esteve lá. Viu o sol dançar. As suas roupas secaram. Ela não sabia ler – mas nunca duvidou.

Hoje, o Santuário de Fátima recebe cerca de 6 milhões de peregrinos por ano. É o terceiro maior destino de peregrinação católica do mundo, a seguir ao Vaticano e a Guadalupe (México). A economia local vive disto: hotéis, restaurantes, lojas de arte sacra. O que começou como um anúncio num jornal – um número, uma promessa – transformou-se numa indústria de fé.

O mistério permanece. E talvez seja melhor assim.

"Não esqueças o dia feliz em que findará o nosso martírio."

O martírio da guerra findou em 1918. Mas Fátima ficou.

 

 

FICHA TÉCNICA

Fontes documentais:

  • Diário de Notícias, 10 de março de 1917 (página 4, coluna 9)
  • Jornal de Notícias, 12 de maio de 1917 ("Revelação sensacional")
  • O Primeiro de Janeiro e Liberdade (anúncios de maio de 1917)
  • Atas do Centro Espírita de Lisboa, 7 de fevereiro de 1917
  • Inquéritos canónicos das aparições (Igreja Católica, 1920-1930)
  • Memórias da Irmã Lúcia (várias edições)
  • Estudos históricos de Michael O'Carroll, Marco Pavan, Cândido Mendes

Dados comparativos IDH:

  • Portugal 1917: aprox. 0,35
  • França 1917: aprox. 0,45
  • Reino Unido 1917: aprox. 0,53
  • Alemanha 1917: aprox. 0,48
 

 

Um anúncio em 1917.

Um número.

Três crianças.

Um sol que dançou para dezenas de milhares de pessoas. Espíritas, católicos, jornalistas, professores. Crentes e descrentes. Um mistério que a ciência não explica. E uma guerra que acabou um ano depois. Fátima não é só religião – é história, é jornalismo, é um caso aberto.

Se esta história o intrigou, partilhe-a. A memória não pesa – liberta.

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