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XXXI A República Populista (1946–1964), a Ditadura Militar (1964–1985) e a Democracia Inacabada (1985 ao presente)
Democracia sob Pressão, a Repressão e a Nova República
Por António Cunha
Publicado em 03/02/2026 06:30
LUSOFONIA: História e Personagens

1946–1964: Democracia sob Pressão

O fim do Estado Novo, em 1945, abriu as portas de volta à democracia, mas o Brasil entrou em um período de instabilidade política e tensão social. As instituições democráticas recém-restauradas precisavam equilibrar forças regionais, elites econômicas, movimentos trabalhistas e a crescente participação da sociedade urbana, ainda marcada por desigualdades profundas.

Presidentes como Juscelino Kubitschek tornaram-se símbolos de um otimismo desenvolvimentista sem precedentes. Kubitschek, eleito em 1955, prometeu cinquenta anos de progresso em cinco, impulsionando a industrialização, a infraestrutura e a integração nacional. Seu maior projeto, a construção de Brasília, não foi apenas uma mudança de capital: foi a materialização de uma visão futurista, planejada para unir o país geograficamente e criar uma cidade moderna, símbolo da esperança e da capacidade administrativa do Estado. Entre arranha-céus, vias largas e edifícios projetados por Oscar Niemeyer, Brasília representava um salto audacioso na imaginação nacional, ao mesmo tempo em que consumia enormes recursos e gerava controvérsias sobre prioridades econômicas.

Outros líderes, como Jânio Quadros, marcaram-se por mandatos breves e conturbados, com políticas populistas e decisões inesperadas que refletiam a volatilidade política da época. A democracia, embora restaurada, vivia sob pressão constante: a polarização ideológica crescia, estimulada pelo contexto da Guerra Fria, pelo medo do comunismo e pelo confronto entre interesses rurais tradicionais e o emergente poder das cidades e da indústria.

As tensões sociais e políticas foram crescendo gradualmente, em um cenário de aumento da mobilização estudantil, de movimentos operários e de manifestações contra desigualdades estruturais. Os governos populistas buscavam conciliar desenvolvimento econômico e controle político, mas a fragilidade institucional e a radicalização de setores conservadores e militares pavimentaram o caminho para a rutura.

O período culminou no golpe militar de 1964, quando forças armadas, com o apoio de setores civis e parte da elite econômica, tomaram o poder. A democracia populista foi interrompida, e o país mergulhou em um regime autoritário que justificava sua atuação pela necessidade de conter supostos perigos comunistas, enquanto iniciava um longo ciclo de censura, repressão política e centralização do poder.

Este capítulo da história brasileira ilustra os dilemas de uma democracia jovem tentando conciliar modernização, participação social e estabilidade política, e revela como o otimismo desenvolvimentista pode conviver, simultaneamente, com tensões profundas que desafiam a própria continuidade do regime democrático.

A Ditadura Militar (1964–1985): Crescimento e Repressão

Em abril de 1964, o Brasil viu-se abruptamente mergulhado em um regime autoritário, inaugurando vinte e um anos de controle militar sobre a vida política, econômica e social do país. O golpe que depôs o presidente João Goulart foi apresentado como uma medida de proteção contra a ameaça comunista, mas rapidamente revelou-se um aparelho de poder centralizado, capaz de moldar e restringir as liberdades civis.

Os direitos políticos foram suspensos, partidos foram dissolvidos, e uma forte censura passou a vigiar jornais, rádios, televisões e até produções culturais. Intelectuais, estudantes, sindicalistas e militantes políticos foram perseguidos; muitos foram presos, torturados, mortos ou forçados ao exílio, deixando um rastro de trauma social que atravessaria gerações.

Paradoxalmente, o regime alcançou um período de crescimento econômico acelerado, conhecido como o “Milagre Econômico”, entre meados da década de 1960 e início da década de 1970. As cidades expandiram-se, grandes projetos de infraestrutura foram implementados — rodovias, hidrelétricas e complexos industriais — e setores da indústria nacional cresceram exponencialmente. Mas esse progresso tinha um custo oculto: o endividamento externo disparou, a concentração de renda aumentou e as desigualdades sociais tornaram-se ainda mais evidentes. Enquanto algumas famílias urbanas ascenderam à classe média, vastas camadas da população permaneceram marginalizadas e sem acesso a serviços básicos.

Nos anos 1980, os ventos da mudança tornaram-se inevitáveis. A economia entrou em crise, marcada por inflação alta, desemprego crescente e falta de perspetivas. Ao mesmo tempo, a sociedade civil mobilizou-se, revivendo o debate democrático através de movimentos organizados, manifestações populares e articulações políticas. O movimento Diretas Já, que clamava pela eleição direta do presidente, emergiu como símbolo dessa pressão coletiva, reunindo milhões de brasileiros nas ruas e inspirando esperança de reconquista da democracia.

O final da ditadura não foi apenas o término de um ciclo autoritário; foi o ponto de inflexão de uma sociedade que recusava a resignação, determinada a reconstruir instituições, restaurar direitos e reconectar o país com a tradição democrática interrompida. O legado desse período — de repressão, resistência e desigualdades — continuaria a moldar a política, a cultura e a memória social do Brasil nas décadas seguintes.

A Nova República (1985–Presente): Democracia Inacabada

O Brasil emergiu da longa noite da ditadura militar com o coração ainda marcado por repressão e desigualdades profundas. Em 1985, a transição para a democracia inaugurou a Nova República, um período de esperança, aprendizado institucional e desafios persistentes. A promulgação da Constituição de 1988 foi um marco histórico: consagrou direitos civis, sociais e políticos inéditos, delineando um contrato social que buscava reconciliar as feridas do passado com a promessa de um futuro democrático.

Os primeiros anos da Nova República foram de experimentos e consolidação institucional. Entre avanços e crises, o país testava seus mecanismos de freios e contrapesos, aprendendo a equilibrar o poder presidencial, legislativo e judiciário. O Plano Real, em 1994, emergiu como um divisor de águas: estabilizou uma economia antes corroída pela hiperinflação, abriu caminho para crescimento econômico e trouxe uma sensação de normalidade monetária ao cidadão comum.

No entanto, a democracia brasileira permaneceu fragilmente tensionada. Governos sucessivos alternaram políticas de austeridade e programas de inclusão social, tentando conciliar estabilidade econômica com justiça social. Dois processos de impeachment presidencial — Fernando Collor em 1992 e Dilma Rousseff em 2016 — escancararam os conflitos institucionais e políticos do país, lembrando que a democracia brasileira continuava a ser construída a cada eleição, a cada decisão do Congresso e a cada manifestação popular.

A virada do século trouxe novas complexidades: polarização ideológica, tensões sociais e desafios globais, como as crises ambientais e a desigualdade persistente, testaram a capacidade do Estado e da sociedade de dialogar de forma democrática. A crescente radicalização política tornou-se evidente nas ruas e nas redes sociais, refletindo divisões históricas entre conservadorismo e progressismo.

Em 8 de janeiro de 2023, o Brasil enfrentou um momento crítico: uma tentativa de golpe de Estado quando autoproclamados “patriotas” invadiram e vandalizaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. O episódio revelou uma democracia forte, mas permanentemente testada, em que instituições resistiram à violência física e simbólica. A crise estava enraizada na contestação aos resultados das eleições de outubro de 2022, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva, promoveu uma narrativa de fraude eleitoral e incentivou manifestações golpistas durante os desfiles de 7 de setembro de 2021 e 2022.

Apesar do ataque, o país demonstrou resiliência institucional. As forças de segurança, o Judiciário e os órgãos legislativos reagiram rapidamente, impedindo a consolidação de um golpe e reafirmando os fundamentos democráticos do Estado. Em 2026, o Brasil permanece como uma democracia robusta, embora sujeita a tensões políticas, desafios sociais e pressões que testam constantemente sua maturidade cívica.

A história da Nova República é, portanto, a de um país que aprendeu a caminhar sobre o terreno escorregadio da liberdade, confrontando simultaneamente o peso do passado e os dilemas do presente. Cada crise, cada disputa política e cada vitória institucional é um lembrete de que a democracia brasileira é conquistada todos os dias, em cada eleição, na resistência civil e na vigilância sobre o poder.

Epílogo: Uma História em Movimento

Da pré-história à República, passando pela colonia e pelo Império, o Brasil construiu-se num permanente equilíbrio entre continuidade e rutura. A sua história política não é apenas uma sucessão de regimes, mas um reflexo das disputas profundas sobre poder, cidadania, inclusão e identidade. Compreender esse percurso é essencial para entender não apenas o passado, mas os dilemas do presente — e as escolhas que ainda moldarão o futuro.

 

 

 

Referências Bibliográficas

Escrever a história do Brasil — desde os seus tempos mais remotos até à consolidação do Estado Brasileiro — é um exercício que exige mais do que datas, nomes e acontecimentos. É um trabalho de escuta atenta: das vozes registadas em papel, das marcas deixadas na terra, dos vestígios materiais, das memórias orais e das interpretações que, ao longo do tempo, procuraram dar sentido a um território vasto, diverso e profundamente desigual.

A narrativa histórica aqui construída assenta num diálogo permanente entre diferentes tipos de fontes e tradições académicas, respeitando normas internacionais de investigação — NP 405 (Portugal), ABNT (Brasil), APA e MLA — e, sobretudo, distinguindo claramente entre facto comprovadohipótese científica e tradição oral.

A História Escrita e o Olhar da Antropologia

Durante séculos, a história do Brasil foi escrita quase exclusivamente a partir do ponto de vista europeu. Cartas régias, relatos de viajantes, documentos administrativos e crónicas missionárias moldaram a visão tradicional sobre o território e os seus habitantes. Obras clássicas como História Concisa do Brasil, de Alfredo Bosi, ou Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, ajudaram a compreender a formação social, política e cultural do país, revelando as tensões entre herança ibérica, adaptação ao trópico e desigualdade estrutural.

No entanto, essa história escrita precisava de ser ampliada. Foi a antropologia histórica que abriu novas portas. Manuela Carneiro da Cunha, na obra fundamental História dos Índios no Brasil, rompeu com a visão do indígena como figura passiva ou desaparecida. O seu trabalho revelou sociedades complexas, politicamente organizadas, com cosmologias próprias e estratégias de resistência e adaptação à colonização.

Aqui, a fonte não é apenas o arquivo europeu, mas também o conhecimento etnográfico, os relatos orais, as continuidades culturais observadas entre povos indígenas contemporâneos e os vestígios deixados no território.

A Arqueologia e o Tempo Profundo da Amazónia

Se a história escrita começa com a chegada dos europeus, a arqueologia empurra a narrativa para milhares de anos antes. Investigadores como Anna Curtenius Roosevelt e Eduardo Góes Neves demonstraram que a Amazónia não foi um espaço vazio ou intocado, mas sim um território profundamente transformado por populações humanas ao longo de milénios.

As suas investigações revelaram terra preta de índio, sistemas agrícolas sofisticados, redes de povoamento, estradas, aterros e centros urbanos pré-colombianos. Estas descobertas desafiam antigas hipóteses deterministas e mostram que o Brasil pré-colonial albergava sociedades complexas, capazes de gerir o ambiente de forma sustentável.

Aqui, a fonte histórica é a própria terra: fragmentos de cerâmica, vestígios de habitação, padrões de ocupação do solo. A narrativa constrói-se a partir da ciência, mas ganha vida quando integrada no contexto social e cultural dessas populações.

Economia, Escravidão e Estruturas de Poder

Para compreender a sociedade colonial, a historiografia económica e social é essencial. Stuart B. Schwartz, em Slaves, Peasants, and Rebels, oferece uma leitura crítica das relações entre escravidão, produção agrícola e resistência. A escravidão surge não apenas como sistema económico, mas como estrutura fundadora da desigualdade brasileira.

Do mesmo modo, J. L. Dias, ao analisar a sociedade colonial, evidencia como elites locais, interesses metropolitanos e mão de obra forçada se articularam num sistema simultaneamente frágil e duradouro. Essas obras permitem ir além da narrativa política tradicional e observar o quotidiano, os conflitos sociais e as estratégias de sobrevivência dos grupos subalternos.

Expansão Ultramarina e o Brasil no Mundo Atlântico

Nenhuma história do Brasil é completa sem a sua inserção no contexto atlântico. Mário Villa, ao estudar os Descobrimentos e a expansão ultramarina, enquadra o Brasil como parte de um sistema global de comércio, guerra, fé e ambição. A colonização não foi um projeto isolado, mas um capítulo de uma história maior, que ligava Lisboa, África, América e Oriente.

Este enquadramento é essencial para compreender decisões estratégicas como a criação das capitanias hereditárias, a fundação de Salvador ou a transferência da capital para o Rio de Janeiro.

Salvador, Administração e Poder Central

O estudo da administração colonial, como o de Ricardo Santos sobre Salvador, ou o artigo de Maria Beatriz de Freitas sobre Tomé de Sousa, permite reconstruir o momento em que a Coroa portuguesa tentou impor ordem a um território vasto e instável. Aqui, cruzam-se fontes administrativas, correspondência oficial e análises historiográficas modernas, revelando tanto os planos da metrópole quanto as limitações práticas do poder colonial.

Entre Factos, Hipóteses e Memórias

Ao longo desta obra, a distinção entre níveis de conhecimento é fundamental:

  • Factos comprovados baseiam-se em documentação escrita, arqueológica ou estatística amplamente consensual.
  • Hipóteses científicas surgem quando as fontes são fragmentárias ou interpretativas, como no debate sobre contactos pré-cabralinos ou a dimensão das populações indígenas.
  • Tradições orais preservam memórias coletivas, mitos fundadores e narrativas de resistência que, embora não verificáveis pelos métodos clássicos, são essenciais para compreender identidades e visões do mundo.

Epílogo Metodológico

A história do Brasil não é uma linha reta, nem uma narrativa única. É um mosaico construído a partir de múltiplas fontes, olhares e disciplinas. Ao articular arqueologia, antropologia, história social, económica e política, esta obra procura oferecer não apenas uma reconstrução do passado, mas uma reflexão sobre como esse passado é conhecido, interpretado e narrado.

 

Porque, no fim, escrever história é também escolher quais vozes escutar — e garantir que nenhuma delas seja definitivamente silenciada.


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