A decisão de criar um governo central no Brasil não nasceu de um momento de inspiração súbita, mas da constatação lenta e inquietante de que o território escapava ao controlo da Coroa. As capitanias hereditárias, concebidas como solução engenhosa para colonizar um espaço vasto com recursos escassos, revelaram-se desiguais, frágeis e, em muitos casos, incapazes de se sustentar. Enquanto algumas prosperavam, outras mergulhavam no abandono, na violência ou na ameaça constante de potências estrangeiras.
Foi nesse cenário de incerteza que Lisboa compreendeu uma verdade essencial: o Brasil não poderia ser governado à distância nem fragmentado em interesses privados. Era necessário um centro de poder, um coração político e militar capaz de coordenar, defender e impor autoridade régia sobre a colónia. Assim, entre 1548 e 1549, a Coroa portuguesa decidiu dar um passo decisivo: criar o Governo-Geral do Brasil.
Para liderar essa missão foi escolhido Tomé de Sousa, militar experiente, homem de confiança do rei D. João III, investido de amplos poderes para fundar não apenas uma administração, mas uma cidade — símbolo físico e político da presença do Estado português na América.

A Escolha de Salvador: Geografia, Estratégia e Poder
A escolha da localização da capital não foi aleatória. Salvador, erguida à entrada da Baía de Todos os Santos, reunia condições excecionais. A baía oferecia abrigo natural para embarcações, facilitava o controlo marítimo e permitia rápida comunicação com Portugal. Do alto da escarpa, a cidade dominava visualmente o mar e o território circundante, tornando-se um bastião defensivo contra invasões estrangeiras.
Ali convergiam rotas atlânticas, interesses económicos e a necessidade de vigilância constante. Salvador nascia, assim, não como uma vila improvisada, mas como uma cidade pensada, desenhada para governar, vigiar e organizar um império colonial em expansão.
Os objetivos da centralização eram claros e ambiciosos: consolidar a autoridade régia sobre as capitanias, reforçar a defesa contra franceses e, mais tarde, holandeses, controlar o comércio do pau-brasil, do açúcar e de outros recursos estratégicos, e substituir a fragmentação administrativa por um sistema coerente, funcional e hierarquizado.

Tomé de Sousa: o Fundador do Governo-Geral
Em 29 de março de 1549, Tomé de Sousa chegou à costa da Bahia com uma armada imponente para os padrões da época: cerca de mil homens, entre soldados, colonos, artesãos, funcionários régios e religiosos. Trouxe consigo algo raro na história da colonização: plantas urbanas, instruções detalhadas e um projeto de poder.
Foi nas imediações da atual Ladeira da Barra que a expedição aportou, dando início à construção da cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, a primeira capital do Brasil. Tomé de Sousa não se limitou a administrar; fundou instituições. Criou cargos-chave como o Capitão-Mor, responsável pela defesa; o Ouvidor-Mor, encarregado da justiça; e o Provedor-Mor, guardião das finanças da Coroa. Com esses pilares, lançou as bases do Estado colonial.
Mandou erguer fortalezas ao longo da costa, estabeleceu normas administrativas e incentivou a agricultura e a pecuária, procurando tornar a colónia mais autossuficiente. Trouxe consigo os primeiros jesuítas, liderados por Manoel da Nóbrega, encarregados da evangelização indígena, mas também da mediação cultural e da pacificação — um papel ambíguo, simultaneamente espiritual e político. Fundou-se o primeiro colégio, criou-se o primeiro bispado, e a religião passou a ser instrumento de governação.

Garcia D’Ávila: o Senhor do Sertão
Entre os homens que acompanharam Tomé de Sousa, destacou-se Francisco Dias D’Ávila, mais conhecido como Garcia D’Ávila, figura controversa e decisiva. Nomeado feitor e almoxarife da cidade e da alfândega, rapidamente se tornou um dos pilares do poder colonial na Bahia.
A sua trajetória mistura diplomacia e violência. Garcia D’Ávila estabeleceu alianças estratégicas com alguns caciques indígenas, enquanto subjugava outros pela força. Recebeu de Tomé de Sousa vastas sesmarias — catorze léguas de terras que se estendiam de Itapuã ao Rio Real. Foi nessas terras que ergueu, em 1550, a sua fortaleza-residência, embrião da futura Casa da Torre, um dos maiores domínios territoriais privados da América portuguesa.
Em poucos anos, Garcia D’Ávila tornou-se o homem mais poderoso da Bahia. Controlava terras, gado, rotas e homens. A sua atuação foi marcada por conflitos com missionários, que o acusavam de explorar indígenas, mas também por uma visão estratégica que ajudou a consolidar o avanço português para o interior.

As Vozes que Escreveram a Cidade
Enquanto soldados construíam muralhas e religiosos erguiam igrejas, homens como Pero de Góis, escrivão da frota e mais tarde provedor-mor e ouvidor, registavam em cartas e relatórios o nascimento da capital. Os seus escritos são hoje fontes primárias inestimáveis: descrevem o desembarque, as primeiras construções, as dificuldades do quotidiano, a convivência com os indígenas — muitas vezes mediada por figuras como Caramuru — e a lenta transformação de um espaço natural numa cidade de pedra, lei e poder.
Implementação e Organização da Cidade de Salvador
A construção de Salvador seguiu um plano urbano deliberado. Bairros foram organizados, praças centrais definidas, e fortificações costeiras erguidas para proteger a cidade. Criou-se a Câmara Municipal, símbolo do poder local subordinado à Coroa, e instituiu-se o Pelourinho, marco visível da autoridade régia e da justiça — também da punição.
A vida social organizou-se em torno da distribuição de sesmarias, que incentivava a agricultura e fixava colonos. Milícias locais foram formadas para manter a ordem e defender a cidade. As relações com os povos indígenas oscilaram entre alianças frágeis e conflitos abertos, muitas vezes mediados por caciques como Taparica, cuja diplomacia foi crucial para a sobrevivência inicial da cidade.

Desafios, Sucessos e Limites da Centralização
A criação do governo-geral representou um sucesso estrutural. Reduziu conflitos entre donatários, fortaleceu a defesa costeira e transformou Salvador num polo político, militar e comercial do Atlântico Sul. A administração central permitiu maior controlo do comércio e lançou as bases para o crescimento económico da colónia.
Mas os desafios persistiram. Houve resistência de donatários, colonos e povos indígenas às novas políticas. A escassez de mão de obra qualificada levou à intensificação do trabalho forçado indígena e, progressivamente, à importação de africanos escravizados. As dificuldades financeiras e logísticas exigiram apoio constante da metrópole.
Ainda assim, Salvador consolidou-se como o centro a partir do qual o Brasil começou, lentamente, a ser governado como um todo. A cidade não foi apenas capital: foi laboratório do Estado colonial, palco onde se experimentaram as formas de poder que moldariam o Brasil nos séculos seguintes.

Da Capital ao Sertão: Expansão, Ouro e Consolidação do Poder Colonial
Com a fundação de Salvador e a implantação do governo-geral, o Brasil deixou de ser apenas um conjunto disperso de feitorias costeiras para se tornar um território progressivamente integrado num projeto imperial. A cidade-capital funcionava como centro nervoso da colónia, mas o poder português sabia que governar a costa não bastava. Para assegurar a posse efetiva da terra, era necessário avançar para o interior, atravessar serras, rios e matas, enfrentar resistências humanas e naturais, e transformar o desconhecido em território administrável.
A partir da segunda metade do século XVI, a expansão territorial tornou-se uma prioridade estratégica. Partindo sobretudo da capitania de São Vicente, bandeirantes paulistas lançaram-se em longas incursões pelo sertão. Moviam-se entre a busca de mão de obra indígena escravizada, a captura de metais preciosos e o simples desejo de conquista territorial. Muitas dessas expedições operavam à margem da legalidade régia, mas, paradoxalmente, acabaram por servir os interesses da Coroa ao alargar, na prática, os limites do domínio português muito além do que fora estipulado pelo Tratado de Tordesilhas.
Durante décadas, o sertão resistiu. As promessas de ouro e prata surgiam em rumores, relatos fragmentários e mapas imprecisos. Só no final do século XVII a persistência foi recompensada. Nas regiões montanhosas do atual estado de Minas Gerais, bandeirantes identificaram jazidas auríferas significativas. A descoberta marcou uma viragem profunda na história do Brasil colonial.

Referências Bibliográficas
Escrever a história do Brasil — desde os seus tempos mais remotos até à consolidação do Estado Brasileiro — é um exercício que exige mais do que datas, nomes e acontecimentos. É um trabalho de escuta atenta: das vozes registadas em papel, das marcas deixadas na terra, dos vestígios materiais, das memórias orais e das interpretações que, ao longo do tempo, procuraram dar sentido a um território vasto, diverso e profundamente desigual.
A narrativa histórica aqui construída assenta num diálogo permanente entre diferentes tipos de fontes e tradições académicas, respeitando normas internacionais de investigação — NP 405 (Portugal), ABNT (Brasil), APA e MLA — e, sobretudo, distinguindo claramente entre facto comprovado, hipótese científica e tradição oral.
A História Escrita e o Olhar da Antropologia
Durante séculos, a história do Brasil foi escrita quase exclusivamente a partir do ponto de vista europeu. Cartas régias, relatos de viajantes, documentos administrativos e crónicas missionárias moldaram a visão tradicional sobre o território e os seus habitantes. Obras clássicas como História Concisa do Brasil, de Alfredo Bosi, ou Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, ajudaram a compreender a formação social, política e cultural do país, revelando as tensões entre herança ibérica, adaptação ao trópico e desigualdade estrutural.
No entanto, essa história escrita precisava de ser ampliada. Foi a antropologia histórica que abriu novas portas. Manuela Carneiro da Cunha, na obra fundamental História dos Índios no Brasil, rompeu com a visão do indígena como figura passiva ou desaparecida. O seu trabalho revelou sociedades complexas, politicamente organizadas, com cosmologias próprias e estratégias de resistência e adaptação à colonização.
Aqui, a fonte não é apenas o arquivo europeu, mas também o conhecimento etnográfico, os relatos orais, as continuidades culturais observadas entre povos indígenas contemporâneos e os vestígios deixados no território.
A Arqueologia e o Tempo Profundo da Amazónia
Se a história escrita começa com a chegada dos europeus, a arqueologia empurra a narrativa para milhares de anos antes. Investigadores como Anna Curtenius Roosevelt e Eduardo Góes Neves demonstraram que a Amazónia não foi um espaço vazio ou intocado, mas sim um território profundamente transformado por populações humanas ao longo de milénios.
As suas investigações revelaram terra preta de índio, sistemas agrícolas sofisticados, redes de povoamento, estradas, aterros e centros urbanos pré-colombianos. Estas descobertas desafiam antigas hipóteses deterministas e mostram que o Brasil pré-colonial albergava sociedades complexas, capazes de gerir o ambiente de forma sustentável.
Aqui, a fonte histórica é a própria terra: fragmentos de cerâmica, vestígios de habitação, padrões de ocupação do solo. A narrativa constrói-se a partir da ciência, mas ganha vida quando integrada no contexto social e cultural dessas populações.
Economia, Escravidão e Estruturas de Poder
Para compreender a sociedade colonial, a historiografia económica e social é essencial. Stuart B. Schwartz, em Slaves, Peasants, and Rebels, oferece uma leitura crítica das relações entre escravidão, produção agrícola e resistência. A escravidão surge não apenas como sistema económico, mas como estrutura fundadora da desigualdade brasileira.
Do mesmo modo, J. L. Dias, ao analisar a sociedade colonial, evidencia como elites locais, interesses metropolitanos e mão de obra forçada se articularam num sistema simultaneamente frágil e duradouro. Essas obras permitem ir além da narrativa política tradicional e observar o quotidiano, os conflitos sociais e as estratégias de sobrevivência dos grupos subalternos.
Expansão Ultramarina e o Brasil no Mundo Atlântico
Nenhuma história do Brasil é completa sem a sua inserção no contexto atlântico. Mário Villa, ao estudar os Descobrimentos e a expansão ultramarina, enquadra o Brasil como parte de um sistema global de comércio, guerra, fé e ambição. A colonização não foi um projeto isolado, mas um capítulo de uma história maior, que ligava Lisboa, África, América e Oriente.
Este enquadramento é essencial para compreender decisões estratégicas como a criação das capitanias hereditárias, a fundação de Salvador ou a transferência da capital para o Rio de Janeiro.
Salvador, Administração e Poder Central
O estudo da administração colonial, como o de Ricardo Santos sobre Salvador, ou o artigo de Maria Beatriz de Freitas sobre Tomé de Sousa, permite reconstruir o momento em que a Coroa portuguesa tentou impor ordem a um território vasto e instável. Aqui, cruzam-se fontes administrativas, correspondência oficial e análises historiográficas modernas, revelando tanto os planos da metrópole quanto as limitações práticas do poder colonial.
Entre Factos, Hipóteses e Memórias
Ao longo desta obra, a distinção entre níveis de conhecimento é fundamental:
- Factos comprovados baseiam-se em documentação escrita, arqueológica ou estatística amplamente consensual.
- Hipóteses científicas surgem quando as fontes são fragmentárias ou interpretativas, como no debate sobre contactos pré-cabralinos ou a dimensão das populações indígenas.
- Tradições orais preservam memórias coletivas, mitos fundadores e narrativas de resistência que, embora não verificáveis pelos métodos clássicos, são essenciais para compreender identidades e visões do mundo.
Epílogo Metodológico
A história do Brasil não é uma linha reta, nem uma narrativa única. É um mosaico construído a partir de múltiplas fontes, olhares e disciplinas. Ao articular arqueologia, antropologia, história social, económica e política, esta obra procura oferecer não apenas uma reconstrução do passado, mas uma reflexão sobre como esse passado é conhecido, interpretado e narrado.
Porque, no fim, escrever história é também escolher quais vozes escutar — e garantir que nenhuma delas seja definitivamente silenciada.
A RNLP - Rádio Nova da Língua Portuguesa
- é feita por lusófonos de várias origens.
Fique sintonizado com a nossa emissão,
instalando os nossos aplicativos:
Web APP: Aplicação para o seu Browser:
Android APP: Para Instalar o aplicativo no celular / telemóvel Android:
Onde quer que você esteja!!!
Somos 280 milhões e a quinta língua mais falada no mundo