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Contra a Mentira da Cor
No Dia Internacional contra a Discriminação Racial, o mundo continua a olhar para uma ferida antiga, persistente e dolorosa
Por Rádio Nova da Língua Portuguesa
Publicado em 21/03/2025 14:35
Causa

 

No Dia Internacional contra a Discriminação Racial, o mundo continua a olhar para uma ferida antiga, persistente e dolorosa. Uma ferida que sangra silenciosamente em olhares desviados, em oportunidades negadas, em palavras cruéis e em histórias que, muitas vezes, acabam antes mesmo de começarem.

 

Hoje, queremos fazer mais do que lembrar. Queremos sentir, reconhecer e transformar. Queremos ouvir as vozes caladas pela cor da pele e, sobretudo, mostrar que a ideia de “raças humanas” é uma construção que a ciência já desmentiu — mas alguns insistem em perpetuar.

 

O racismo não nasceu com a humanidade. Ele foi inventado. Cultivado. Justificado. E depois, sistematizado.

 

Durante milénios, as diferenças físicas entre povos – cor de pele, feições, textura do cabelo – não eram tidas em conta como base para descriminação. Os povos antigos guerreavam por comida, território, religião ou poder, mas não porque alguém tinha “uma pele de cor diferente”.

 

Foi com a expansão colonial europeia, a partir do século XV, que a cor da pele começou a ser usada como argumento para legitimar a dominação. Era preciso justificar a mão de obra escrava de africanos, a exploração dos povos indígenas e o saque de territórios. E a “solução” encontrada foi tão perversa quanto eficaz: convencer o mundo de que existiam raças superiores e inferiores.

 

 

O Racismo como Ideologia de Poder

 

O século XVIII trouxe o chamado Iluminismo – um período de grandes avanços científicos e filosóficos. Mas, ironicamente, foi também nesse contexto que surgiram as primeiras tentativas “científicas” de classificar os seres humanos em raças. Antropólogos e naturalistas brancos, a partir de uma visão eurocêntrica e distorcida, criaram escalas humanas, onde o homem branco europeu ocupava o topo da pirâmide.

 

Na prática, isso significava que ser branco era sinónimo de civilização, inteligência e valor, enquanto ser negro, indígena ou asiático significava o oposto: atraso, selvageria e inferioridade. Foi essa lógica que sustentou séculos de escravidão transatlântica, que arrancou milhões de africanos dos seus lares e os condenou à servidão brutal nas Américas.

 

 

 

O Auge do Racismo: o Século XX e o Horror da Ideologia

 

No século XX, o racismo atingiu um dos seus momentos mais sombrios com o nazismo na Alemanha, que elevou a ideia de “pureza racial” à política de Estado. A perseguição aos judeus, ciganos, negros, pessoas com deficiência e outros grupos culminou no Holocausto — um genocídio que matou mais de seis milhões de pessoas.

 

Mas o racismo não ficou restrito à Europa. Nos Estados Unidos, as leis de segregação racial (“Jim Crow”) proibiam negros de frequentar os mesmos espaços que brancos, de casar fora da sua “raça”, de votar livremente. No sul da África, o apartheid institucionalizou a separação racial, negando direitos básicos à maioria negra em nome da supremacia branca.

 

Mesmo após a abolição da escravatura nas "américas", o racismo continuou a existir, reformulado, mascarado, mas nunca erradicado.

 

 

 

Histórias que a cor tenta calar

 

A história de Cláudia Silva Ferreira, no Brasil, ainda ecoa em gritos engasgados. Mulher negra, mãe de quatro filhos, alvejada por policiais em 2014, arrastada por um carro da polícia por centenas de metros. A cor da pele foi, para ela, uma sentença.

 

Na África do Sul, onde o apartheid foi legal até 1994, Steve Biko, um ativista negro que pregava a libertação da mente negra, foi espancado até à morte em uma cela. Seu crime? Acreditar que sua cor não deveria ser uma marca de subjugação.

 

Na França, Adama Traoré, jovem negro, morreu sob custódia policial em 2016. O caso, abafado e mal explicado, reacendeu o debate sobre o racismo sistêmico num país que insiste em se autodeclarar “cego à cor”.

 

Em Portugal, a morte de Giovani Rodrigues, estudante cabo-verdiano espancado por um grupo branco, expôs uma realidade muitas vezes ignorada: o racismo estrutural em sociedades que se dizem progressistas.

 

Estes nomes são apenas alguns. Mas representam milhões de vidas marcadas pela injustiça de terem nascido com um tom de pele com um pouco mais de melanina, como se isso fosse um crime.

 

 

 

O que diz a ciência: raça humana é uma só

 

Não é opinião. É fato científico: só existe uma raça – a humana, o Homo sapiens.

 

Segundo estudos genéticos, como os conduzidos pelo Projeto Genoma Humano, qualquer ser humano no planeta partilha 99,9% do mesmo DNA. As diferenças de cor de pele, textura de cabelo ou feições são variações superficiais, adaptativas, e representam menos de 0,1% do nosso código genético.

 

O biólogo evolutivo e premiado autor Richard Lewontin já dizia: “As variações dentro de uma mesma população são maiores do que entre comunidades longínquas.” Ou seja, uma pessoa de pele negra pode ter mais semelhanças genéticas com uma pessoa de pele branca do seu bairro do que com outra pessoa de pele negra de um outro continente.

 

A ciência é clara: raça, no sentido biológico aplicado aos humanos, não existe. É uma construção social e histórica, alimentada por interesses de dominação, descriminação, exploração e exclusão.

 

 

 

As marcas invisíveis do racismo

 

Mesmo sem base científica, o racismo deixa marcas bem reais.

 

Nos EUA, um estudo publicado na revista The Lancet revelou que viver sob constante ameaça de discriminação afeta a saúde mental e física dos negros, contribuindo para níveis mais altos de hipertensão, depressão e doenças cardíacas.

 

No Brasil, a taxa de homicídios entre jovens negros é quatro vezes maior que entre jovens brancos. Em Portugal, os cidadãos afrodescendentes têm menor acesso à educação superior e maior taxa de desemprego, mesmo com qualificações equivalentes.

 

É a cor da pele tornando-se um obstáculo onde não deveria haver nenhum.

 

 

 

O Racismo e a Xenofobia: Dois Rostos da Mesma Intolerância

 

O racismo e a xenofobia são primos próximos. Enquanto o primeiro discrimina com base na raça ou cor da pele, o segundo rejeita quem é de fora, quem vem de outro país, cultura ou religião. Mas ambos nascem do mesmo solo: o medo do outro, o desejo de superioridade e o culto à ignorância.

 

Hoje, vemos isso com clareza. Migrantes africanos, latino-americanos ou do Oriente Médio são tratados como ameaças em muitos países. São rotulados, marginalizados e, muitas vezes, vítimas de violência. O discurso xenofóbico, cada vez mais normalizado por líderes populistas, reforça estigmas raciais e perpetua o ódio.

 

 

 

Uma Ferida Aberta no Século XXI

 

Apesar dos avanços nas leis e nas consciências, o racismo continua a respirar – nos sistemas judiciais, no mercado de trabalho, nas ruas, nas piadas “inocentes”, nos olhares que julgam antes de ouvir.

 

É importante lembrar que o racismo não é apenas um ato isolado de ódio – é um sistema, uma estrutura que beneficia uns e exclui outros.

 

Lutar contra ele é mais do que postar uma imagem preta nas redes sociais. É ouvir, aprender, repensar e agir. É confrontar privilégios, dar espaço à diversidade e construir uma sociedade onde a cor da pele não determine o destino de ninguém.

 

 

 

Para onde vamos?

 

O racismo não é um erro biológico. A ciência já o refutou: só há uma raça — a humana. O que existe são culturas, histórias, cores e trajetórias diferentes, todas igualmente válidas, todas igualmente humanas.

 

Mas enquanto houver silêncio cúmplice, indiferença ou normalização da discriminação, o passado continuará a escrever o presente.

 

Neste Dia Internacional contra a Discriminação Racial, não basta lembrar. É preciso resistir.

 

Porque a verdadeira humanidade começa quando reconhecemos no outro o mesmo valor

 

 

 

Contra o racismo, informação é resistência

 

A RNLP – Rádio Nova da Língua Portuguesa acredita que dar voz é um ato de justiça. É por isso que, neste dia – e em todos os outros –, reafirmamos o nosso compromisso com a igualdade, a inclusão e a verdade científica.

 

Vamos continuar a abrir espaço para histórias que precisam ser ouvidas, para debates que precisam ser travados, e para uma verdade que precisa ser dita:

 

A cor da pele nunca definirá o valor de uma vida.
Somos todos da mesma raça. A única. A humana.
Diga não ao racismo. Diga sim à dignidade.

 

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