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A Maré Negra: Como o Populismo Radical Engoliu o Século XXI
Dos algoritmos que nos empurram para o abismo às urnas que já não perdoam — a história de um fenómeno que não veio do nada
Por António Cunha
Publicado em 16/10/2026 06:39
Opinião

 

 

Há uma pergunta que não me sai da cabeça:

-Como é que, em pleno século XXI, com acesso à informação nunca antes visto, continuamos a assistir à ascensão de discursos que dividem o mundo em “nós” e “eles”?

A resposta, meus caros, não é simples. E quem vos escreve não vai fingir que é.

 

O populismo e a extrema-direita não caíram do céu. Cresceram no esterco das crises. A desindustrialização deixou bairros inteiros sem chão. A crise de 2008 transformou sonhos em dívidas. E enquanto isso, uma parte da elite política continuou a falar numa linguagem que ninguém entendia ou entende.

O resultado?

Um sentimento de abandono que se colou à pele de milhões de pessoas. E quando alguém aparece a dizer que “o povo é puro” e “a elite é corrupta”, é difícil não ouvir.

 

Mas não nos enganemos. Há mais do que economia nisto. Há medo. Medo de que o mundo à nossa volta mude demasiado depressa. Medo de perder o que julgávamos nosso. E há, também, uma máquina tecnológica que aprendeu a explorar esse medo com uma precisão cirúrgica.

 

A Máquina Que Nos Radicaliza

Vou ser direto: as redes sociais não são canais neutros. Nunca foram. São negócios desenhados para nos manter viciados ao ecrã. E o que gera mais tempo de ecrã? Não é a verdade morna. É a raiva. É a indignação. É o medo.

 

Um estudo publicado na Revista Nature em fevereiro de 2026, conduzido com quase cinco mil utilizadores da plataforma X, mostrou algo perturbador.

-Durante sete semanas, metade dos participantes viu o feed algorítmico normal — aquele “Para Ti” — e a outra metade viu um feed cronológico, sem filtros.

Resultado?

Quem ficou exposto ao algoritmo não só passou a seguir mais contas de ativistas conservadores, como as suas próprias opiniões políticas se deslocaram para a direita. E o mais assustador: mesmo depois de o algoritmo ser desligado, essas pessoas continuaram a seguir as mesmas contas. O dano já estava feito.

 

Isto não é teoria da conspiração. É ciência. O algoritmo do X, especificamente, promove conteúdo conservador e rebaixa publicações de media tradicional. Reduz a exposição a jornais e televisões em 15,5%. Ou seja, quanto mais tempo passamos naquela plataforma, menos contacto temos com o jornalismo que tenta verificar factos.

 

E não é só no X. Um relatório do think tank finlandês Sitra, divulgado em março de 2026, analisou o que jovens de 18 a 24 anos vêem no TikTok, Instagram e X em três países europeus.

O resultado é de gelar a espinha: 58% de todo o conteúdo político recomendado era de direita. Mesmo quando os perfis simulados demonstravam interesse exclusivo por conteúdo de esquerda, o algoritmo continuava a empurrar perspetivas de direita para o feed.

 

Metade dos jovens inquiridos disse sentir deceção, medo, raiva ou tristeza quando encontrava discussões políticas nestas plataformas. Não é para menos. O ambiente digital tornou-se um ringue onde a nuance é a primeira a ser nocauteada.

 

Do “Nós Contra Eles” ao Poder

Os políticos populistas perceberam isto antes de todos nós. E adaptaram-se. Já não fazem campanha apenas em tempos de eleições. Fazem campanha permanente. Vivem de polémicas, de indignação, de reações em tempo real. Falam como “o povo” — com expressões caseiras, com insultos diretos, com uma autenticidade fabricada que faz o eleitor sentir que finalmente alguém o entende.

 

E o mais eficaz de tudo: apontam culpados. Os imigrantes. As minorias. A “ideologia de género”. A União Europeia. A ONU. A OMS. O jornalista que fez uma pergunta incómoda.

A bode expiatório perfeito é aquele que está sempre à mão.

 

Esta estratégia de “nós contra eles” não é nova. Mas ganhou uma eficácia brutal com os algoritmos a amplificarem cada mensagem de medo e cada teoria da conspiração. O resultado está à vista.

 

Nos Estados Unidos, o movimento MAGA de Donald Trump redefiniu o Partido Republicano com um nacionalismo protecionista e anti-imigração. No Brasil, o bolsonarismo canalizou o descontentamento com a corrupção e as crises económicas para uma agenda moral e religiosa que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Na Argentina, Javier Milei chegou ao poder com uma retórica de rutura contra a “casta política”, mesmo que a sua economia seja ultraliberal.

 

Na Europa, o fenómeno é ainda mais sustentado. Viktor Orbán, na Hungria, construiu o que ele próprio chama de “democracia iliberal”, com controlo sobre os media e a justiça. Em França, a União Nacional de Marine Le Pen e Jordan Bardella normalizou-se no debate central. Em Itália, Giorgia Meloni governa com uma coligação de direita assente em políticas de identidade nacional e controlo migratório.

 

Portugal Já Não É Uma Exceção

Durante décadas, Portugal foi apresentado como uma espécie de milagre europeu: um país onde a extrema-direita não conseguia entrar no Parlamento. Esse tempo acabou.

 

O Chega, fundado em 2019 por André Ventura, saltou de 1,3% dos votos nesse ano para 23% em 2025. Tornou-se a segunda força política do país. E não foi por acaso. O partido soube ocupar o vácuo deixado pela degradação dos serviços públicos, pelos baixos salários e pelos escândalos de corrupção que mancharam os partidos do sistema.

 

E há um dado que devia fazer-nos pensar: nas últimas eleições legislativas, o Chega foi o partido mais votado pelos emigrantes portugueses, com 26,15% dos votos. Nas presidenciais de 2026, André Ventura venceu na emigração com mais de 50% dos votos expressos. Comunidades portuguesas na Suíça, França, Luxemburgo e Reino Unido — muitas delas elas próprias migrantes — votaram em massa num partido que defende políticas anti-imigração. É uma contradição que diz muito sobre o sentimento de abandono e a desconfiança nas instituições.

 

E há ainda um fenómeno cruzado que merece atenção. Os brasileiros são a maior comunidade estrangeira em Portugal — cerca de 600 mil legalizados. Tornaram-se o alvo preferencial do discurso de controlo migratório do Chega. Mas, ao mesmo tempo, fações de brasileiros evangélicos e bolsonaristas apoiam as pautas morais e de segurança dos partidos de direita radical portugueses. Criam-se alianças ideológicas transnacionais que ninguém previu.

 

O Que Diz a Ciência Sobre Como Combater Isto

 

Agora, a parte difícil. Como é que se trava esta maré?

A primeira coisa a dizer é que insultar o eleitorado populista não funciona. Isolar os líderes também não. A ciência política tem mostrado que estas abordagens tendem a vitimizar o movimento e a reforçar a retórica do “nós contra eles”.

 

Um estudo coordenado pelo European University Institute analisou o impacto de anúncios anti-populistas durante um referendo em Itália. A conclusão foi clara: ataques agressivos geram um efeito ricochete. A longo prazo, as regiões expostas a esse tipo de campanha registaram um aumento do voto em partidos populistas radicais e uma erosão ainda maior da confiança nas instituições. Atacar o populismo com as mesmas armas que ele usa só alimenta o cinismo.

 

O que funciona, então?

 

Resolver as causas estruturais é o ponto de partida. O populismo cresce onde o Estado falha. Habitação acessível, salários dignos, serviços de saúde e educação que funcionem. Quando as promessas democráticas têm consequências reais na vida das pessoas, a revolta perde combustível.

 

Outra estratégia com evidência sólida é o prebunking — ou “vacinação psicológica”. Em vez de desmentir mentiras depois de elas circularem, trata-se de ensinar as pessoas a identificar as táticas de manipulação antes de serem expostas a elas. Uma meta-análise de 49 estudos experimentais, com mais de 81 mil participantes, encontrou fortes evidências de que estas intervenções melhoram significativamente a capacidade de distinguir informação credível de desinformação. Vídeos curtos de inoculação, testados em 12 países da União Europeia, reduziram a suscetibilidade à desinformação eleitoral, mesmo em populações mais velhas.

 

E há o exemplo francês. Nas eleições legislativas, a extrema-direita parecia imparável. Mas os partidos do centro e da esquerda uniram-se num pacto de desistências mútuas na segunda volta — a chamada “Frente Republicana”. Os candidatos menos votados retiraram-se para concentrar os votos no candidato com mais hipóteses de derrotar a extrema-direita.

O resultado? A maioria absoluta que as sondagens previam para a União Nacional não se concretizou. A coordenação institucional e a mobilização do eleitorado moderado ainda funcionam.

 

Uma Nota Sobre os PALOP

Nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, o fenómeno assume contornos diferentes. Não há uma clivagem “extrema-esquerda versus extrema-direita” ao estilo europeu. O populismo manifesta-se através de discursos nacionalistas de libertação, frequentemente ligados aos partidos históricos pós-independência, ou na emergência de movimentos juvenis urbanos que usam as redes sociais para desafiar elites cleptocráticas e autoritárias. É um populismo de outra natureza, mas com a mesma raiz: a perceção de que o sistema não serve o povo.

 

O Que Fica

Não vou terminar este texto com um final feliz. Seria desonesto. A ascensão do populismo radical é um dos fenómenos mais marcantes do nosso tempo, e não vai desaparecer por decreto.

 

Mas há algo que podemos fazer. Podemos recusar a lógica do “nós contra eles”. Podemos exigir dos políticos soluções complexas em vez de bodes expiatórios. Podemos aprender a identificar a manipulação antes de ela nos apanhar. E podemos, acima de tudo, continuar a falar uns com os outros — mesmo quando é desconfortável.

 

A democracia não se defende com algoritmos. Defende-se com pessoas. Com jornalismo sério. Com conversas difíceis. Com a coragem de olhar para o outro e ver um ser humano, não um inimigo.

 

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Porque a informação de qualidade é o primeiro passo para uma democracia mais forte.

 

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