Há um momento, sempre antes de uma eleição, em que o ar fica carregado de promessas. É uma espécie de feira das vaidades, onde todos os candidatos juram que vão baixar os impostos, salvar o planeta e, já agora, arranjar um lugar de estacionamento à porta de casa para cada cidadão.
Contudo, no meio do ruído, surge a pergunta que vale por um mandato inteiro: afinal, o que é que um candidato ao poder executivo - seja presidente ou primeiro-ministro - tem de mostrar efetivamente para não ser apenas mais um vendedor de ilusões?
A resposta não é um truque de magia. É um exercício de equilíbrio quase circense.
Imaginemos a cena:
-o candidato sobe ao palanque. À frente, não está uma multidão anónima, mas sim quatro plateias distintas, sentadas em mesas separadas, cada uma com o seu próprio caderno de encargos.
Ignorar qualquer uma delas é garantia de fracasso. Agradar a todas ao mesmo tempo? Isso é para ilusionistas.
A Mesa do Povo: a dor e a promessa
Na primeira mesa, senta-se o povo. Não aquele "povo" abstrato dos discursos, mas a Dona Maria, que espera há três meses por uma consulta; o João, que viu o preço dos alimentos disparar; e a Ana, que tem medo de voltar para casa à noite.
Para esta plateia, o candidato não pode falar em "macroeconomia" ou "défices estruturais". Ele tem de falar a língua da sobrevivência. Planos concretos para a saúde (onde as filas de espera são o novo passatempo nacional), para a segurança (que não se resolve apenas com mais polícia, mas com prevenção) e para a habitação (onde o mercado parece um jogo de monopólio viciado).
Acima de tudo, exige-se empatia. Aquele aperto de mão não pode ser somente um gesto mecânico. Tem de transmitir a sensação de que, se ele ganhar, a Dona Maria não estará sozinha na fila. E, claro, transparência. A corrupção é a desgraça que devora a confiança. Um candidato que não olha nos olhos e diz "não vou roubar" já perdeu a mão.
A Mesa dos Investidores: a arte de não assustar o capital
Na mesa ao lado, o ambiente é mais frio. Estão os investidores, nacionais e internacionais. Não querem saber de promessas de coração. Querem saber se o dinheiro deles está seguro. O que eles procuram é uma palavra que assusta muitos políticos, mas que é o pão de cada dia do mercado: previsibilidade!
Aqui, o candidato tem de mostrar que não é um aventureiro. Responsabilidade fiscal não é um detalhe técnico; é a garantia de que a moeda não vai derreter e de que a dívida não vai explodir. Segurança jurídica é a promessa de que os contratos são para cumprir e que as regras do jogo não mudam a cada amanhecer. E, claro, um ambiente de negócios que não seja um labirinto burocrático. O investidor quer saber: "Vou conseguir abrir a minha empresa em três dias ou em três meses?" Se a resposta for vaga, ele leva o dinheiro para outra freguesia.
A Mesa da Sociedade Civil: o termómetro da decência
Na terceira mesa, sentam-se os representantes da sociedade civil. ONGs, sindicatos, associações, igrejas e, não menos importante, a imprensa. Esta plateia não se compra com promessas de crescimento do PIB. Eles querem saber que tipo de país está a ser construído.
O candidato tem de demonstrar respeito pelas instituições. A separação de poderes não é uma sugestão, é a base da democracia. A liberdade de imprensa não é um obstáculo, é um espelho. E a justiça tem de ser autónoma, não uma marioneta do poder.
Depois, há as agendas setoriais: a transição energética (que já não é uma moda, é uma necessidade), os direitos humanos e a proteção das minorias. Esta mesa exige diálogo. Não aquele diálogo de fachada para consumo na TV ou redes sociais, mas canais reais onde a sociedade é ouvida antes de as grandes políticas serem impostas. Ignorar esta mesa é garantir um mandato a navegar contra o vento da contestação permanente.
A Mesa dos Parceiros Internacionais: a credibilidade além-fronteiras
Finalmente, na quarta mesa, estão os países parceiros. Num mundo globalizado, nenhum país é uma ilha. O candidato tem de projetar a imagem de um parceiro fiável.
Alinhamento geopolítico claro. Seja na União Europeia, na União Africana, no Mercosul ou noutros blocos, o país não pode ser um barco à deriva. Cumprimento de acordos internacionais, especialmente os climáticos (como o Acordo de Paris), porque a Terra não espera por conveniências eleitorais. E uma postura diplomática previsível. O isolacionismo é um luxo que poucos podem pagar. A cooperação em crises globais - migrações, saúde, segurança - é a prova dos nove da maturidade política.
O Momento da Verdade
E aqui chegamos ao ponto de rutura. Um candidato que tenta agradar a estas quatro mesas com o mesmo discurso genérico falha redondamente. O eleitor não é ingénuo, o investidor não é distraído, a sociedade civil não é surda e os parceiros internacionais não são tolos.
A grande revelação, aquela que separa os estadistas dos aprendizes de feiticeiro, é que a confiança não se constrói com palavras bonitas. Constrói-se com a coerência entre o que se diz na campanha e o que se faz no poder.
E, convenhamos, num mundo onde a informação viaja à velocidade da luz, a mentira tem pernas curtas.
O candidato que vence não é o que promete o paraíso. É o que olha para as quatro mesas e diz, com a voz firme de quem sabe o que custa: "Isto é o que vou fazer, isto é o que pode correr mal, e isto é como vamos pagar a conta." É uma abordagem menos épica, talvez. Mas é a única que, no final do dia, permite governar sem que o país se transforme num reality show de horrores.
Portanto, da próxima vez que vir um candidato a discursar, lembre-se destas mesas. E pergunte-se: a qual delas ele está realmente a falar? Se a resposta for "a todas", desconfie. Se a resposta for "a nenhuma", fuja.
A democracia, ao contrário do que muitos pensam, não é um salto de fé. É um contrato. E os contratos, como sabemos, têm de ser lidos com atenção.
Observações:
Previsibilidade: Em "economês", a palavra não significa adivinhar o futuro, mas sim garantir que as regras do jogo não mudam de um dia para o outro. É o oposto de "surpresa".
Segurança Jurídica: É a certeza de que a lei é igual para todos e que os contratos assinados são cumpridos. Sem isto, ninguém investe a sério.
Isolacionismo: Política de um país que decide fechar-se sobre si mesmo, ignorando o resto do mundo. Na prática, é como tentar jogar futebol sem sair da baliza.